Historia do Jongo e o Jongo da Serrinha

Origens

O jongo, ou caxambu é um ritmo que teve suas origens na região africana do Congo-Angola. Chegou ao Brasil-Colônia com os negros de origem bantu trazidos como escravos para o trabalho forçado nas fazendas de café do Vale do Rio Paraíba, no interior dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

A demanda por mão-de-obra para o trabalho na mineração e nas fazendas de café intensificou o tráfico negreiro. Com a decadência econômica de outras regiões do país, uma massa imensa de escravos imigrou para o Sudeste onde, em alguns momentos, mais da metade da população era formada por africanos, a maioria de ascendência bantu.

A influência da nação bantu foi fundamental na formação da cultura brasileira.Para acalmar a revolta e o sofrimento dos negros com a escravidão e distrair o tédio dos brancos, os donos das isoladas fazendas de café permitiam que seus escravos dançassem o jongo nos dias dos santos católicos.

Para esses negros africanos e seus filhos, o jongo era um dos únicos momentos permitidos de trocas e confraternização.
O jongo é uma dança profana para o divertimento, mas uma atitude religiosa permeia a festa. Antigamente, só os mais velhos podiam entrar na roda. Os jovens ficavam de fora observando. Os antigos eram muito rígidos com os mais novos e exigiam muita dedicação e respeito para ensinar os segredos ou “mirongas” do jongo e os fundamentos dos seus pontos.

Os pontos do jongo têm linguagem metafórica cifrada, exigindo muita experiência para decifrar seus significados.Os jongueiros eram verdadeiros poetas-feiticeiros, que se desafiavam nas rodas de jongo para disputar sabedoria. Com o poder das palavras e uma forte concentração, buscavam encantar o outro por meio da poesia do ponto de jongo. Quem recebesse um ponto enigmático tinha que decifrá-lo na hora e respondê-lo (“desatar o ponto”). Caso contrário, ficava enfeitiçado, “amarrado”, chegando a desmaiar, perder a voz, se perder na mata, ou até mesmo morrer instantaneamente. Atualmente esses fatos não acontecem mais.

O jongo é uma dança dos ancestrais, dos pretos-velhos escravos, do povo do cativeiro, e por isso pertence à “linha das almas”. Contam que aquele que tem a “vista forte” é capaz de enxergar um antigo jongueiro falecido se aproximar da roda para relembrar o tempo em que dançava o caxambu.

Contam também que alguns jongueiros, à meia-noite, plantavam no terreiro uma muda de bananeira que, durante a madrugada, crescia e dava frutos distribuídos para os presentes.

Até hoje, alguns núcleos familiares de afro-descendentes persistem em manter viva a tradição do jongo.

A Festa

Os negros montam uma fogueira e iluminam o terreiro com tochas.
Do outro lado, armam uma barraca de bambu para os pagodes, um arrasta-pé onde os casais dançam o calango ao som da sanfona de oito baixos e pandeiro.
À meia-noite, a negra mais idosa e responsável pelo jongo interrompe o baile, sai da barraca e caminha para o terreiro de “terra batida”. É hora de acender a fogueira e formar a roda. As fagulhas da fogueira sobem pro céu e se misturam com as estrelas. Ela se benze nos tambores sagrados, pedindo licença aos pretos-velhos – antigos jongueiros que já morreram – para iniciar o jongo.Improvisa um verso e canta o primeiro ponto de abertura. Todos respondem cantando alto e batendo palmas com grande animação. O baticum dos tambores é violento. O primeiro casal se dirige para o centro da roda. Começa a dança.
Durante a madrugada, os participantes assam na fogueira batata-doce, milho e amendoim. Alguns fumam cachimbo, tomam cachaça, café ou caldo de cana quente para se esquentar.O jongo é muito animado e vai até o sol raiar, quando todos cantam para saudar o amanhecer ou “saravá a barra do dia”.
Dança-se o jongo no dia 13 de maio, consagrado aos pretos-velhos, nos dias de santos católicos de devoção da comunidade, nas festas juninas, nos casamentos e, mais recentemente, em apresentações públicas.

Dança

Os jongueiros dançam muitas vezes descalços, vestindo as roupas comuns do dia-a-dia.
O jongo é uma dança de roda e de umbigada. Um casal de cada vez dirige-se para o centro da roda girando em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. De vez em quando, aproximam-se e fazem a menção de uma umbigada. A umbigada no jongo é de longe.Logo um outro entra roda, pedindo licença: “Dá uma beirada cumpadre!” ou “Bota fora ioiô!” Os casais, um de cada vez, vão se revezando até de manhã numa disputa de força, ginga e agilidade.Durante a dança, o casal trava uma comunicação pelo olhar, que vai determinando o deslocamento pela roda e o momento da umbigada.
No jongo da Serrinha, existe um passo que se chama “tabiá”, uma pisada forte com o pé direito.

Os instrumentos

O jongo é dançado ao som de dois tambores, um grave (caxambu ou tambu) e um agudo (candongueiro). O repicar do candongueiro atravessa os vales, avisando aos jongueiros das fazendas distantes que é noite de jongo.Os tambores são feitos de tronco de árvores escavados com um pedaço de couro fixado com pregos numa das extremidades. São de origem bantu e conhecidos em Angola e no Brasil como “ngoma”. Antes do jongo começar, eles são aquecidos no calor da fogueira, que estica o couro e afina o som.

Em alguns locais, os tambores são acompanhados por uma cuíca de som grave, a angoma -puíta ou onça (na África chamada de “mpwita”), e por um chocalho de palha trançada com fundo de cabaça, chamado guará.

Durante a madrugada, os tambores começam a ficar úmidos de sereno, perdendo o som. Por isso são levados várias vezes para perto do fogo para serem afinados. Enquanto esperam, os jongueiros vão para a barraca dançar o calango.

Os tambores são sagrados, pois tem o poder de fazer a comunicação com o outro mundo, com os antepassados, indo “buscar quem mora longe”. No início da festa, os jongueiros vão se benzer, tocando levemente no seu couro em sinal de respeito.

Mestre Darcy inventou um terceiro tambor solista reproduzindo as células rítmicas emitidas pelos sons guturais que saiam da garganta da jongueira centenária Vovó Tereza quando essa dançava o jongo.

Pontos

O canto do jongo é responsorial. É cantado primeiramente pelo solista, com versos livres improvisados, e o refrão respondido por todos.
Os pontos de jongo têm frases curtas que retratam o contato com a natureza, fatos do cotidiano, o dia-a-dia de trabalho braçal nas fazendas e a revolta com a opressão sofrida. São cantados no linguajar do homem rural, com sotaque de preto-velho, e gungunados, numa espécie de som gutural bem resmungado saído do peito.

Os pontos misturam o português com heranças do dialeto africano de origem bantu, o quimbundo. São criados de improviso e exigem grande criatividade, agilidade mental e poesia, muito comuns aos negros bantus.
Os jongueiros trocaram o sentido das palavras criando um novo vocabulário passando a conversar entre si por meio dos pontos de jongo numa linguagem cifrada. Só alguém com muita experiência consegue entender os seus significados. Assim, os escravos se comunicavam por meio de mensagens secretas, que muitas vezes protestavam contra a escravidão, zombavam dos patrões publicamente, combinavam festas de tambor e fugas.

Quando algum jongueiro quer cantar um outro ponto, interrompendo o anterior, ele põe as mãos no couro dos tambores e grita a palavra “machado” ou “cachoeira”. Isso cala os tambores, interrompendo o ponto anterior e a dança para que o jongueiro em seguida “tire” um novo ponto.Os pontos podem ser de diversos tipos:

abertura ou licença – para iniciar a roda de jongo

louvação – para saudar o local, o dono da casa ou um antepassado jongueiro

visaria – para alegrar a roda e divertir a comunidade

demanda, porfia ou “gurumenta” – para a briga, quando um jongueiro desafia seu rival a demonstrar sua sabedoria

encante – era cantado quando um jongueiro desejava enfeitiçar o outro pelo ponto

encerramento ou despedida – cantado ao amanhecer para saudar a chegada do dia e encerrar a festa

Jongo e Samba

O jongo influenciou decisivamente o nascimento do samba no Rio de Janeiro. No início do século 20 o jongo era o ritmo mais tocado no alto das primeiras favelas pelos fundadores das escolas de samba antes mesmo do samba nascer e se popularizar. Os antigos sambistas da velha guarda das escolas de samba realizavam rodas de jongo em suas casas. Nessas festas visitavam-se uns aos outros, recebendo também jongueiros do interior.Os versos do partido-alto e do samba de terreiro são inventados na hora pelo improvisador. Esse canto de improviso nasceu das rodas de jongo. A umbigada, que na língua quimbundo se chama “semba”, originou o termo samba e também faz parte do samba primitivo. A “mpwita”, instrumento congo-angolano presente no jongo, é a avó africana das cuícas das baterias das escolas de samba.

O jongo, por ser uma festa de divertimento, mas com aspectos místicos, fez com que a dança se restringisse aos ambientes familiares. Por isso, ao contrário do samba, que logo conseguiu hegemonia nacional, acabou sendo pouco divulgado. O fato do jongo ser praticado apenas por idosos e proibido para os mais jovens foi outro fator que levou a dança a um processo acelerado de extinção.

O Jongo da Serrinha

O fim da escravidão não acabou com as injustiças praticadas contra os negros. Os ex-escravos e seus descendentes não receberam um pedaço de terra para continuar trabalhando na agricultura. Assim, foram obrigados a migrar para a cidade do Rio de Janeiro, então capital do país, em busca de melhores oportunidades. No início do século, o Rio de Janeiro já sofria com a especulação imobiliária. As obras de demolição do centro colonial da cidade, empreendidas pela nova política de “embelezamento” à moda francesa e “sanitarização”, expulsaram a população pobre dali para o alto dos morros, até então desabitados devido ao difícil acesso, inaugurando uma nova forma de moradia: as favelas.

A chegada dessa população do Vale do Rio Paraíba fez com que o Rio de Janeiro se tornasse a região do Brasil com maior concentração de jongueiros. Apesar da mudança para a cidade, essas famílias negras continuaram a dançar o jongo em seus novos redutos como os morros de São Carlos, Salgueiro, Mangueira, e, sobretudo na Serrinha. Assim, graças à memória desses antigos jongueiros, foi possível reviver o passado das fazendas.Por volta de 1930, devido ao estreito contato com a vida urbana, aos novos modismos e à morte dos jongueiros idosos, o jongo foi aos poucos desaparecendo dos morros cariocas. No entanto, a Serrinha, localizada na periferia, isolada da parte central da cidade, como se fosse uma “roça” afastada, pôde preservar a cultura afro-brasileira tradicional.

A vida dos moradores desse morro do subúrbio de Madureira continuou bem parecida com a dos tempos das fazendas. As cachoeiras, os bambuzais, os animais selvagens, as casas de pau-a-pique, o candeeiro e o ferro a brasa continuaram a fazer parte do dia-a-dia. O espírito festivo dos moradores e a consciência da importância de se preservar a cultura negra foram fundamentais para a formação desse núcleo de famílias-artistas. As ladainhas, os blocos de carnaval, os pastoris, as casas de umbanda, o samba de partido-alto, o calango e o jongo da Serrinha ficaram famosos, atraindo a visita de intelectuais, políticos e artistas do outro lado da cidade para suas rodas de samba, festejos, umbandas e candomblés.

Seus moradores lideraram movimentos negros e de luta popular, como a fundação do primeiro sindicato do Brasil, o do Cais da Estiva, onde muitos deles trabalhavam e a fundação das primeiras escolas de samba.A partir da década de 60, muitos velhos jongueiros da Serrinha foram morrendo e, mesmo naquela comunidade, as rodas de jongo começaram a se extinguir. Preocupados com isso, Mestre Darcy Monteiro e sua família convidaram as antigas jongueiras Vovó Teresa, Djanira, Tia Maria da Grota e Tia Eulália para formar o grupo artístico Jongo da Serrinha e quebraram o tabu que impedia as crianças de participarem do jongo.

Casa do Jongo

Jongos

Pisei na pedra

Pisei na pedra, a pedra balanceou,
levanta meu povo, cativeiro se acabou

PAPAI CORTA A LENHA (ponto de visaria, Darcy Monteiro)
Papai corta a lenha,
boi puxa, auê,
Junta de boi novo,
brandia, óia só.
Os tambores candongando no terreiro,
rapaz pra ser bonito tem que ser jongueiro.
Aos domingos tinha jongo na fazenda,
moças vestindo chitas, babados, rendas.
DESAFORO (ponto de demanda, Vovó Maria Joana)
Desaforo de camundongo pegou vara e foi carriá,
ninho tá na paineira, quero ver quem vai tirar.
Ai papai, ai mamãe,

EU TENHO PENA (ponto de demanda, Darcy Monteiro)
Eu tenho pena,
eu tenho dó,
de ver Maria de saia sem paletó.
A Maria foi ao jongo
de saia de mirinó,
seu cordão arrebentou
sua saia foi ao pó.

CAXINGUELÊ (VOVÓ MARIA JOANA)
Ah! Eu fui no mato…
eu fui cortar cipó..
Ah! Eu vi um bicho…
esse bicho era caxinguelê.
Eu panhei o côco,
caxinguelê tá me olhando.
Eu levei o côco,
caxinguelê tá me olhando,
Eu parti o côco,
caxinguelê tá me olhando.
Eu comi o côco,
caxinguelê tá me olhando.
Fiz pudim de côco,
caxinguelê tá me olhando.
Fiz bolo de côco,
caxinguelê tá me olhando.

BANA CUM LENÇO (ponto de visaria, Vovó Maria Joana)
Bana cum lenço, bana cum lenço.
Bana cum lenço, bana cum lenço,
navio já foi embora, criola, bana cum lenço.

EU CHOREI
(ponto de visaria, Manuel Bam-Bam-Bam)

Eu chorei, eu chorava,
era minha mãe que me acalentava.
Bem pequenininho, mamãe me embalava,
por isso que eu chorei, por isso que eu chorava.
Ia para a rua, na rua eu brigava,
era minha mãe que me consolava.
Meu pai me batia, ai, como apanhava,
era minha mãe quem desapartava.
E a professora quando me reprovava,
era minha mãe quem me incentivava.

13 DE MAIO (ponto de louvação, Djanira do Jongo)
No dia 13 de maio,
cativeiro acabou,
e os escravos gritavam
liberdade senhor.
PAPAI SUBIU O MORRO DE SÃO JOSÉ (ponto de visaria, Lazir Sinval)
Papai subiu o Morro de São José,
chuva fina, tava garoando.
Ô ire, o Morro de São José
chuva fina, tava garoando.
Papai já tinha que pagar promessa pra São José,
tava garoando.
Subia o morro o sapato apertava seu pé,
chuva fina, tava garoando ô rirê.

MARIA SUNGA SAIA (ponto de visaria, Darcy Monteiro)
Maria sunga a saia,
chuva evem pra te molhá.
Ela custô lavá,
chuva evém pra te molhá.
Maria sunga a saia,
chuva evém pra te molhá.

SARACURA (jongo-enredo, Pedro Monteiro e Darcy Monteiro)
Quando a noite descia,
ao som da Ave-Maria,
um som de tambor se ouvia.
Dentro de uma senzala,
em um caminho pra Minas,
vozes de jongueiros se ouviam.
Na fazenda da Bemposta, em pleno Estado do Rio,
um jongueiro sentia falta do caxambu,
tocava o candongueiro, após o angú.
Cantarolava a saracura,
levou o lenço da moça
que ficou chorando,
que pecado que ela leva quando morrer.
Sabiá cantou na laranjeira,
Sá Rolinha tá de luto de sentimento,
Sinhá dona “pereguntô”: “Quê que tá chorando?”
Que pecado que ela leva quando morrer?
Ora dança o caxambú.
Eu quero ver quem dança comigo, eu quero ver?

VAPOR DA PARAÍBA (Vovó Teresa)
Vapor berrou na Paraíba,
chora eu, chora eu Vovó.
Fumaça dele na Madureira,
e chora eu.
O vapor berrou piuí, piuí.
Ô irê, irê, irê,
ô irê, irê, irê.
(Vovó Teresa conta nesse jongo a sua ida de trem de Paraíba do Sul para o subúrbio de Madureira. Vendo a fumaça do trem de ferro Maria-Fumaça, lembrava das chaminés dos navios do Rio Paraíba).

EU NUM É DOUTÔ (Pedro Monteiro)
Eu num é doutô,
eu num é “fermêro”.
Como vai tomá conta de butica na Piedade?
Eu num sabe lê,
eu num sabe “crevê”.
Como vai tomá conta de butica na Piedade?

AI MORENA (ponto de visaria, Vovó Maria Joana)
Ai morena,
tenho muito o que fazer.
Tenho roupa pra lavar, ô morena,
e botão para colher.
Vou embarcar na diligência das onze horas,
trem de ferro inda não veio, chegou agora.
JONGUEIRO BOM (ponto de demanda, Darcy Monteiro)
Jongueiro bom é de Lorena,
Matou galinha temperô na querozena.
Compadre eu era ossada,
hoje eu sou osso puro,
estou atirado fora,
atirado no monturo.
Canoa de arariba,
remo de araribá,
a canoa de jongueiro,
tem boca e sabe falá.
PAPAI NA LADEIRA (ponto de despedida, Eva Emely)
Mamãe foi pro jongo,
papai ficou na ladeira.
Mamãe foi pro jongo,
papai ficou na ladeira.
De chapéu na mão,
papai ficou na ladeira.
Fumando o cigarro,
papai ficou na ladeira.
Choveu relampeou,
papai ficou na ladeira.
Neném que mamá,
papai ficou na ladeira

VOU CAMINHAR (ponto de despedida)
Vou caminhar que o mundo gira,
vou caminhar que o mundo gira,
gira meu povo.

Mestres e Mestras do Jongo

Vovó Maria Joana (1902-1986) e Pedro Monteiro

Maria Joana Monteiro, a Vovó Maria Joana Rezadeira, nasceu em 24 de junho de 1902 na Fazenda Saudade, perto da Fazenda da Bem Posta, em Marquês de Valença, interior do estado do Rio de Janeiro. Quando criança trabalhou em lavouras de arroz, feijão e café. Seus avós paternos eram africanos, seu avô materno era negro e sua avó materna índia, “pegada no mato”.

Ainda criança, trabalhou na lavoura. Aprendeu o jongo na fazenda onde nasceu. Quando seus padrinhos morreram, órfã de mãe, Maria Joana foi morar no Rio com o pai, que também morreu logo depois. Foi morar em Cascadura, trabalhando como ama-seca. Depois de doze anos no Morro da Mangueira, mudou-se para a Serrinha, onde ficou até morrer.

Casou-se aos quatorze anos com o primo Pedro Francisco Monteiro, também jongueiro e cavaquinista. Pedro era carregador do Lloyd Brasileiro e, assim que chegou ao Morro da Serrinha, dedicou-se a trabalhos comunitários, ajudando a fundar a Escola de Samba Império Serrano. Vovó Maria cantava as ladainhas na Serrinha no dia de São Pedro, na casa de Vovó Líbia e Seu Antenor, e na quadra de ensaios do Império Serrano, no dia de São Jorge, antes da saída da imagem do santo para a procissão que percorre as ruas dos subúrbios. Vovó Maria desfilava no alto do carro com a imagem de São Jorge, pois era a mãe de santo mais popular de Madureira.

Dava o jongo em sua casa no dia 24 de junho, dia de São João, e data de seu aniversário. Aos vinte e sete anos, começou a desenvolver sua mediunidade e, após a morte de seu marido, construiu um espaço em sua casa para rituais de umbanda. Seu terreiro, a Tenda Espírita Cabana de Xangô, entrou para a história do Rio de Janeiro. Rezadeira famosa, recebia grande número de crianças e adultos com orações que os livrava de doenças como o “vento virado”, “espinhela caída”, “quebrantos” e outros males. Vovó também era parteira: muitas gerações da Serrinha foram aparadas pelas suas mãos.
Mulher de muito carisma, onde quer que chegasse sua forte presença atraía todos, que logo a cercavam para saber quem era aquela senhora tão simpática e bem vestida, com suas roupas de santo brilhantes, que ela mesma criava e costurava. Vovó dedicava todo seu tempo à caridade, abrindo a sua casa para abrigar os necessitados e oferecer-lhes um teto e um prato de comida. Em intenção a São Lázaro, o Obaluaiê da umbanda, Vovó Maria Joana realizava todos os anos na sua casa o “Banquete dos Cachorros”, ritual em que uma ceia era servida no chão, primeiramente, para os cachorros da redondeza.

Figura querida e de prestígio, cultivava amizades de artistas, intelectuais, músicos e políticos famosos. Estes, muitas vezes, vinham de longe para se aconselhar com sua ancestral sabedoria e participar dos banquetes regados a muita comida, bebida, partido-alto e jongo. Clara Nunes, que desde moça frequentava sua casa, tornou-se sua filha-de-santo, assim como diversos outros sambistas. Vovó Maria Joana sempre fez parte do mundo do samba. Ex-componente da antiga escola Prazer da Serrinha participou com seu marido, em 1947, da fundação da Escola de Samba Império Serrano, onde desde o primeiro ano desfilou na ala das baianas, além de desenhar figurinos para a escola.

Vovó Maria disse que, quando morresse, ficaria feliz por saber que tinha ensinado o jongo para muita gente e que este não iria mais acabar: “Tudo tem o seu dono. /Nós não somos donos de nada, /Mas o que recebemos temos que passar adiante.” Sua casa, na Rua da Balaiada, 124, no coração da Serrinha — ladeira onde moram as famílias Oliveira, Monteiro e Silas de Oliveira, e local de fundação do Império Serrano — ainda hoje é um núcleo que mantem vivas importantes manifestações da cultura afro-brasileira e ponto de referência para toda a comunidade e seus arredores.

Mestre Darcy do Jongo (1932 – 2001)

Darcy Monteiro, o Mestre Darcy do Jongo da Serrinha, nasceu em 31 de dezembro de 1932 na rua da Balaiada 124, Morro da Serrinha. Filho de Pedro Monteiro e Vovó Maria Joana Rezadeira, pertencia a uma das mais tradicionais dinastias do jongo no Brasil, sendo responsável pela perpetuação do jongo na Serrinha até os dias de hoje. Seguindo os passos do pai, Pedro Monteiro, Darcy desde cedo começou a fazer trabalhos comunitários na Serrinha. De uma família de músicos iniciou sua carreira profissional aos 16 anos, tornando-se um percussionista sensacional.

Em 1947, fundou a Escola de Samba Império Serrano, onde introduziu o agogô na bateria pela primeira vez, sendo logo copiado pelas outras escolas do Rio de Janeiro. Mestre Darcy foi fundador — com Candeia, Wilson Moreira e Nei Lopes — do Grêmio Recreativo de Arte Negra Quilombo, e também da primeira escola de samba infantil, a Império do Futuro, sendo filiado à Ordem dos Músicos do Brasil desde sua fundação. Na Rádio Nacional, acompanhou grandes nomes da música, como Geraldo Pereira, Francisco Alves, Jorge Veiga, Ataulfo Alves, Marlene, Emilinha, Herivelto Martins, Monsueto, Mário Reis. Foi coreógrafo e ritmista de um trio de pandeiros no Cassino da Urca, e atuou em diversas casas noturnas da cidade. Viajou para a França, Portugal, Inglaterra, Uruguai e Argentina, participou da Companhia de Carlos Machado e das Orquestras do Severino Araújo, Maestro Guido de Moraes, Raul de Barros e Paulo Moura. Também acompanhou o jazzista Dizzy Gillespie em suas apresentações no Brasil, participou das gravações do disco “Missa dos Quilombos”, de Milton Nascimento, e de discos de cantores como Roberto Ribeiro e Beth Carvalho.

Com sua família e antigos jongueiros, fundou o grupo Jongo da Serrinha, na época chamado Jongo Bassam, a fim de retomar as rodas de jongo e divulgar a tradição. Apresentava-se com a mãe, Vovó Maria Joana Rezadeira, com a esposa, Eunice Monteiro, a irmã Eva, o filho Darcy, a sobrinha Dely, e a jongueira centenária Vovó Teresa, Tia Maria da Grota e Djanira do Jongo. Apresentou-se com o jongo em diversos teatros do Brasil e do exterior. Mestre Darcy além de músico profissional e jongueiro participava como ogã nas atividades da Tenda Espírita de Xangô tocando tambor para sua mãe e irmã.

Muito carismático Darcy era um fenômeno tocando tambor, dançava e cantava muito bem, compôs diversos jongos e sambas, dirigia artisticamente o grupo e era uma lenda viva, um personagem que ligava as novas gerações ao passado musical da cidade do Rio de Janeiro. Dono de uma forte personalidade quebrou três tabus: introduziu instrumentos de harmonia no jongo tradicional, passou a ensinar o ritmo para as crianças e levou o jongo dos quintais da Serrinha para os palcos. Nos últimos anos, Mestre Darcy ensinava o jongo para universitários e estudantes em geral e chegou a participar da gravação de CDs de novos artistas. Ao morrer, em dezembro de 2001, deixou como herdeiro dos toques dos tambores do jongo seu filho Darcy Antônio.

Tia Eva Emely Monteiro (1938 – 1994)

Eva Emely Monteiro nasceu em 18 de agosto de 1938 no Morro da Serrinha. Filha de Vovó Maria Joana e Pedro Monteiro, teve dois filhos, Pedro e Dely, atualmente cantora do jongo. Sempre morou com a mãe, seguindo os seus passos de jongueira, sambista e mãe-de-santo. Aprendeu a dançar o jongo ainda criança, observando seus pais nas rodas da Serrinha com seu irmão Darcy. Tia Eva era uma excelente compositora de sambas, curimas e pontos de jongo. Ensinou a dança para muita gente, ajudando a mãe e o irmão nessa tarefa. Após a morte de Vovó, herdou a responsabilidade de continuar realizando as festas na Tenda Espírita Cabana de Xangô. Comandava os toques dos tambores do terreiro de umbanda ensinando os ritmos para os ogãs batendo com a palma das mãos. Eva era integrante do Império Serrano, escola fundada por seu pai. Era responsável por toda uma ala, cuidando das fantasias e do desempenho de cerca de 200 pessoas no desfile do Carnaval. Nas famosas festas na casa de Vovó Maria, era ela quem organizava tudo e cozinhava a comida em grandes panelões.
Nascida em Paraíba do Sul, Vovó Teresa morreu na Serrinha aos 115 anos. Antiga jongueira do tempo do cativeiro, Vovó Teresa trabalhou como empregada doméstica do Marechal Deodoro da Fonseca e mesmo com idade avançada insistia muito para que seus filhos, Antônio Fuleiro e o jongueiro da Portela Antônio Rufino, dançassem com ela nas rodas de jongo. Ensinou a dança, os pontos e alguns mistérios antigos do jongo para os mais novos da Serrinha. Mestre Fuleiro, seu filho, ficou famoso no mundo do samba como o maior Mestre de Harmonia do Império Serrano. A respeito da atitude de Mestre Darcy de introduzir instrumentos de harmonia no jongo, ele dizia: “Acho que ele está certo. Quem dera que um preto-velho fosse permitido pelo senhor pegar num violão ou numa viola, por isso só tocavam tambor mesmo… Só acho que nesses espetáculos deve-se mostrar também o jongo cru como ele é mesmo”. Vovó Tereza morava na rua Lambari, atual rua Antônio dos Santos Fuleiro. Dançou o jongo até morrer e bem velhinha ainda participava dos shows do grupo Jongo da Serrinha a convite do Mestre Darcy. Para relembrar a vinda de Paraíba do Sul para Madureira num trem “Maria Fumaça” ela cantava: “Vapor berrou na Paraíba, chora eu. Fumaça dele na Madureira, chora eu.”
Dona Marta (1886 – 1963)
Marta Ferreira da Silva, filha de José Ferreira e Maria Francisca Ferreira, nasceu no estado do Rio de Janeiro em 26 de julho de 1886 e faleceu em 28 de abril de 1963, em Madureira. Mãe-de-santo conceituada na Serrinha, em sua casa, o Terreiro d’Ogum, na rua Itaúba 298, havia jongo no dia de Sant’Ana, seu aniversário. Lavadeira de profissão, ainda jovem foi sambista da escola de samba Rainha das Pretas e da Coração Unidos de Rocha Miranda, transferindo-se depois para o samba da Serrinha. Desfilou de baiana no Império Serrano desde sua fundação, em 1947. Figura popularíssima no local, a cada manhã de domingo do carnaval Dona Marta percorria as ruas vizinhas do morro fantasiada com vistosa indumentária de índio. Na abertura do jongo na casa de Dona Marta, João Ricardo, jongueiro de Jacarepaguá marido de Dona Rosa, puxava o ponto inaugural, com solenidade: “Vamos abrir terreiro,/foi Sant’Ana quem mandou./ Na casa de Dona Marta, /foi Sant’Ana que mandou.”
 Tia Maria da Grota (1920)
Tia Maria de Lourdes Mendes nasceu na rua da Balaiada em 30 de dezembro de 1920. Filha do pioneiro Zacarias e de Etelvina, teve nove irmãos que, juntos, fundaram o Império Serrano, entre os quais Sebastião Molequinho,Tia Eulália, Dona Conceição e João Gradim. “Imperianos” das primeiras horas, todos foram criados desde pequenos em ambiente festivo, interessando-se sempre pelo carnaval, pelas festas juninas e pelas pastorinhas. A família sempre foi presença obrigatória entre os sambistas do Império. Tia Maria saiu na Ala das Baianas da agremiação durante toda a vida. Desde pequena, assistia aos jongos e macumbas na Serrinha, embora seja católica praticante. Em 1977, foi convidada por Mestre Darcy para entrar no grupo Jongo da Serrinha. A partir daí, nunca mais parou.

Comadre de Vovó Maria Joana, nasceu na casa em frente à dela. As duas famílias sempre mantiveram fortes laços de amizade e comadrio. Muito respeitada por atualmente ser a jongueira mais antiga da Serrinha, Tia Maria tornou-se a líder do grupo. O quintal de sua casa vive cheio de crianças que passam as tardes brincando, comendo bolo de coco, canjica e sua comidinha mineira deliciosa. Querida por todos, Tia Maria faz lembrar o clima familiar da Serrinha. Nos últimos anos, sua casa tornou-se o local de confraternização do grupo, que ali ensaia e festeja antigas tradições como a feijoada em homenagem aos pretos-velhos no dia 13 de maio, a distribuição de doces de São Cosme Damião no 27 de setembro e as rodas de jongo em seu quintal. De alguns anos para cá, além de dançar maravilhosamente, Tia Maria passou a compor pontos de jongo e a cantar nas apresentações.

Seu Nascimento (1901 – 1953) e Tia Eulália (1908)
José Nascimento Filho, empregado da Resistência do Cais do Porto, nasceu em Três Rios no dia 19 de março de 1903, dia de São José. Marido de Tia Eulália, Seu Nascimento dava o jongo a cada aniversário seu, quando acorriam à sua casa famosos jongueiros do antigo Distrito Federal e do interior do estado do Rio. Acordava cedo, vestia-se de branco com uma camisa azul e dirigia-se à Igreja de São José, no Centro, para assistir à missa do santo. Voltava para casa e começava a preparar as comidas e os foguetes para a festa à noite. De madrugada, o chão do terreiro cobria-se de flores atiradas pelos jongueiros. Eulália do Nascimento, a famosa Tia Eulália, nasceu em 12 de março de 1908 em São José de Além Paraíba / Porto Novo do Cunha, em Minas Gerais, e veio com um ano para o Morro da Serrinha, trazida pelos pais Zacarias e Etelvina, ali permanecendo até hoje. Na infância, viveu numa Serrinha que parecia uma floresta, com bambuzais, cachoeiras e até onça jaguatirica. Seu pai, Francisco Zacarias de Oliveira, foi o precursor dos blocos de carnaval na Serrinha e na cidade do Rio, como o Dois Jacarés.

Amigo do Ministro Edgard Romero, tinha muita influência conseguindo benfeitorias para a comunidade. Sua casa vivia repleta de músicos que organizavam pastoris, gafieiras, serestas e obviamente muitas rodas de samba. Mano Elói dizia que o espírito festivo daqueles nove irmãos filhos do senhor Zacarias Oliveira, já era suficiente para a criação de uma escola de samba. Em 1947, na casa de Tia Eulália e Seu Nascimento na rua Balaiada, no alto do morro, foi fundada a Império Serrano. Tia Eulália é portadora da carteirinha número1 da escola que defende com todo o fervor. Nos ensaios até tarde da madrugada e no desfile da escola ela sempre inspeciona tudo com muito rigor. Conheceu o jongo quando casou com o Seu Nascimento mas seu maior interesse sempre foi o samba.

Vovó Líbia e seu Antenor
A casa de Antenor dos Santos, trabalhador da estiva, foi um importante centro irradiador de cultura popular. Mineiro como sua mulher, Dona Líbia, ele dava o jongo no dia de São Pedro, 29 de junho. Nesse dia, antes do início do jongo, Antenor reunia as crianças e os adultos das redondezas e, por volta das dez horas da noite, com Vovó Maria Joana, rezava a ladainha em louvor ao santo do dia na pequena capela que existia no quintal da sua casa. Nessas ocasiões, o terreiro ficava sempre embandeirado com a fogueira acesa. Já Dona Líbia, mulher de Seu Antenor, era responsável por um grupo de Pastorinhas que no Natal se dirigia à casa de Dona Lucinda, em Vaz Lobo, para apresentar-se para as colegas de lá. A cada 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade, estando o presépio armado desde o mês de novembro, Dona Líbia procedia à Queima da Lapinha. Gina, neta do casal, atualmente é integrante da Bateria do Império Serrano e até hoje dança o jongo.
Aniceto do Império
Aniceto de Menezes Silva Junior foi o maior representante do partido-alto. Desafiava qualquer um na roda a improvisar mais tempo do que ele. Filho de cariocas nasceu em 11 de março de 1912 no bairro do Estácio de Sá. Foi criado pelo lendário Hilário Jovino, criador dos primeiros ranchos de carnaval do bairro da Saúde, local de nascimento do samba. Era estivador do Cais do Porto, onde trabalhou até se aposentar. Andava pelas rodas de samba, afoxés e umbandas da Saúde, Pedra do Sal e dos subúrbios de Madureira. Desde criança, revelou um talento extraordinário para declamar e criar poesias de improviso. Era capaz de ficar horas a fio improvisando, demonstrando uma agilidade mental fabulosa. Seus versos eram muito “gaiatos”, cheios de picardia, e em alguns momentos serviam de galanteios para alguma moça bonita presente. Aniceto foi o orador oficial da Império Serrano, escola que ajudou a fundar. Gostava muito de demonstrar um rico vocabulário e uma dicção perfeita. Nunca abandonou sua escola de coração, mesmo quando começou a ganhar fama de fantástico versador, de voz forte e metálica, passando a ser assediado pelas escolas concorrentes. Grande compositor gravou excelentes discos. Aniceto participava das rodas de jongo da Serrinha e tinha muito respeito pela dança: “O jongo mata, o jongo não é de brincadeira, o jongo é das almas… Deve-se acender uma vela, do lado desta vela um copo d’água. O jongo é o pai de muitas outras músicas que existem por aí.”
  Djanira do Jongo (1934 – 1995)
No Morro da Congonha em frente ao da Serrinha, cujo contingente de sambistas viria a ser absorvido pelo Império Serrano, também havia jongo. Djanira do Jongo, morta em 1996, foi criada pelos antigos jongueiros Dona Florinda e Seu Gabriel Gordo. Aprendeu a dançar o jongo naquele terreiro, no alto do morro em frente à Serrinha. Dona Florinda e Seu Gabriel davam o jongo no dia de São Jorge. Com Djanira, dançavam as meninas Chãozinha, Leda, Lizete e os filhos de Florinda: Quincas, Vicentinho, Nadinho, Antônio, Glória e Geni. Dona Amélia, irmã de Dona Florinda, também estava sempre lá. Djanira e seu marido, o sambista Carlinhos Vovô, faziam parte da Velha Guarda do Império Serrano. Ela cantava e sambava muito bem e era conhecida por todos os sambistas. Foi pastora dos grupos de samba de Aniceto, Candeia e Jovelina Pérola Negra e era a cantora da Velha-Guarda do Império. Participou das apresentações do grupo Jongo da Serrinha desde sua fundação, e compôs o ponto Treze de maio. Filha do jongueiro de Minas Gerais João Batista Cruz, recordava do pai cantando: “O segredo da parede,/barata é que sabe tudo.”

Grupo Cultural Jongo da Serrinha

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