Em foto desbotada, Tia Maria está em pé em uma varanda, à frente de uma porta marrom fechada. Ela é uma mulher negra e usa roupas brancas: vestido rendado com mangas curtas e lenço à cabeça, que cai acima de um ombro. Ela olha para frente e está com uma das mãos na cintura. Usa colar, pulseiras, relógio, anel, e sandálias com salto plataforma. A varanda tem azulejos à meia altura, brancos com estampas cinzas. Os patamares são brancos. Nela, há cadeiras com estofados brancos e vermelhos. No rodapé da foto, está escrito à caneta: 10-10-77.
Em junho, as ações do Projeto Acervo Jongo da Serrinha seguiram em ritmo constante, reafirmando nosso compromisso com a preservação participativa, a acessibilidade e a valorização da memória jongueira como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Digitalização e Acondicionamento: Cuidado Técnico, Respeito Ancestral

Seguimos avançando no trabalho de digitalização e acondicionamento das fotografias e documentos do acervo. Esse processo vai além da simples conversão de arquivos: cada imagem cuidada, cada documento protegido contra o desgaste do tempo, é um ato de responsabilidade com as trajetórias que atravessam gerações. Com padrões museológicos e sensibilidade ancestral, garantimos que a memória física seja preservada enquanto preparamos sua circulação segura e acessível no ambiente digital.

Roda de Investigação Coletiva: A Oralidade como Documento Legítimo

No coração do nosso trabalho está a metodologia do Inventário Participativo, reconhecida pelo IBRAM. Antes que qualquer metadado seja inserido na plataforma Tainacan, ocorre a roda de investigação coletiva. Nesses encontros, mestres como Deli Monteiro, Lazir Sinval e Ivo Mendes, jongueiros mais jovens, pesquisadores e moradores da Serrinha compartilham narrativas, reconhecem rostos, datam eventos por memória afetiva e contextualizam cada item.
É a oralidade validada como documentação legítima. Preservar, aqui, não significa guardar, mas ouvir, reconhecer e construir junto com quem vive a história. A catalogação técnica caminha lado a lado com a escuta comunitária, garantindo que o acervo reflita a memória viva, plural e territorializada do jongo.

Visitas Guiadas e Acessibilidade: Portas Abertas para a Inclusão

As visitas aos Espaços de Memória do Jongo da Serrinha continuam sendo pontes entre tradição, educação e cidadania. No dia 10 de junho, recebemos o grupo de extensão do INES “Conversas Pretas”, com presença de intérprete de Libras. O percurso pelo Centro de Memória, Museu da Tia Maria do Jongo e Terreiro Cabana de Xangô proporcionou um encontro potente com a história e as práticas culturais que sustentam essa manifestação.
Os visitantes, majoritariamente surdos, trouxeram contribuições valiosas sobre acessibilidade e acesso a espaços culturais pretos periféricos, reforçando nosso compromisso contínuo com um acervo verdadeiramente para todxs.

Resiliência e Continuidade: Seguimos Juntos

Junho também nos trouxe um momento inesperado com o desligamento do Arô de nossa equipe. Sua ausência foi sentida com surpresa e tristeza por todos que compartilhavam seu trabalho e dedicação. Mesmo diante desse desafio, reafirmamos nosso compromisso com a continuidade das ações, ajustando estratégias e mantendo o foco na salvaguarda da nossa história e cultura. A memória nos ensina resiliência, e seguimos em frente, juntos.

Próximos Passos

Cada roda, cada imagem digitalizada, cada visita recebida e cada sugestão acolhida fortalece o Acervo Jongo da Serrinha como um museu social vivo. Nosso território segue sendo escola de vida, resistência e celebração. Convidamos você a acompanhar as próximas etapas, acessar a plataforma quando for ao ar e fazer parte dessa rede que protege e difunde o jongo como patrimônio da humanidade.
Este projeto foi possível graças à Emenda Parlamentar do Deputado Federal @tarcisiomottapsol e ao apoio do @museusbr @minc.