O Centro de Memória do Jongo da Serrinha, localizado no coração do Morro da Serrinha, em Madureira (Rio de Janeiro), é  um território vivo de resistência, afeto e "escrevivência". Aqui, salvaguardamos o patrimônio material e imaterial de uma das favelas centenárias do estado, garantindo que as memórias de nossas famílias negras e periféricas não sucumbam ao apagamento sistemático.

 

Logotipo do Centro de Memória do Jongo da Serrinha, apresentando a silhueta de perfil de uma pessoa com cabelo afro e um brinco grande em forma de argola.

O Centro de Memória do Jongo da Serrinha, localizado no coração do Morro da Serrinha, em Madureira (Rio de Janeiro), é  um território vivo de resistência, afeto e "escrevivência". Aqui, salvaguardamos o patrimônio material e imaterial de uma das favelas centenárias do estado, garantindo que as memórias de nossas famílias negras e periféricas não sucumbam ao apagamento sistemático.

 

O Projeto: Inventário Participativo

Em andamento através do Termo de Fomento nº 977761/2025, este projeto tem a meta de inventariar, higienizar, digitalizar e catalogar 350 itens fundamentais do nosso acervo. Mas o diferencial deste trabalho é a sua metodologia: o Inventário Participativo.

A catalogação nasce nas Rodas de Identificação: encontros comunitários onde a oralidade, a rememoração coletiva e a projeção das imagens ativam memórias que transformam uma simples fotografia em um documento histórico rico em nomes, datas, histórias e contextos.

Uma colagem de treze fotografias retratos antigas de membros da família, algumas com legendas e datas escritas à mão.
Para garantir a preservação a longo prazo e a democratização do acesso, seguimos rigorosos protocolos museológicos:
  • Acondicionamento: Uso de materiais neutros e envelopes em cruz para proteção física.
  • Digitalização: Arquivos em formato TIFF a 600 DPI, garantindo alta resolução para pesquisa e difusão.
  • Acessibilidade: Compromisso com a inclusão, utilizando recursos como audiodescrição e texto alternativo (alt-text) em todas as etapas de catalogação, pensando em um acervo que seja verdadeiramente para todos.

Este acervo digital é gerenciado pela plataforma Tainacan, uma solução brasileira de código aberto desenvolvida especialmente para instituições culturais, museus e universidades. O Tainacan nos permite organizar os itens por coleções temáticas (como a Coleção Tia Maria do Jongo ou Coleção Família Monteiro), aplicar filtros de busca avançados e criar narrativas visuais que conectam o passado ao presente.

A missão é preservar, organizar e democratizar o acesso à memória

A missão é preservar, organizar e democratizar o acesso à memória viva de mais de 60 anos de jongo na comunidade da Serrinha, em Madureira. Por meio da metodologia de Inventário Participativo, reconhecida pelo IBRAM, o projeto envolve mestres, griôs e moradores em rodas de conversa, visitas guiadas e ações de escuta ativa para identificar, contextualizar e catalogar 350 itens do acervo físico — entre fotografias, documentos, registros audiovisuais e objetos simbólicos. Deste total, 100 documentos serão digitalizados e disponibilizados em plataforma aberta (Tainacan), com recursos de acessibilidade digital como texto alternativo, tradução em Libras e navegação compatível com leitores de tela.

Convidamos pesquisadores, estudantes, moradores do Morro da Serrinha e todos os amantes da cultura afro-brasileira a navegar por este acervo. Cada item digitalizado aqui carrega a energia vital de quem o preservou e a promessa de que o Jongo da Serrinha continuará ecoando para as futuras gerações.

Coleção Tia Maria do Jongo

Fotografia antiga de uma mulher em pé atrás de quatro crianças pequenas.

Matriarca e liderança do Jongo da Serrinha por mais de duas décadas, Tia Maria do Jongo (Maria de Lourdes Mendes) foi muito além de uma fundadora do Império Serrano: foi uma brilhante arquivista da própria história. Embora se autodenominasse analfabeta, deixou um legado monumental de "escrevivência", organizado em cerca de 25 cadernos de diários, agendas, fotografias, figurinos e documentos que transformaram seu quintal em um verdadeiro centro cultural de resistência. Falecida em 2019, aos 98 anos, ela nos legou a memória viva de uma comunidade que se recusa ao apagamento, mantendo o jongo e o samba pulsantes no Morro da Serrinha.

Esta coleção reúne parte desse precioso acervo, agora digitalizado e catalogado com rigor museológico e afeto comunitário. Por meio do Inventário Participativo e das Rodas de Identificação, cruzamos a documentação material com a oralidade de quem viveu essas histórias, combatendo o memoricídio e garantindo que a narrativa da Serrinha seja contada por seus próprios protagonistas.

Coleção Tia Eva Emely

Um senhor de cabelos grisalhos está sentado no chão, separando uma coleção de fotografias soltas e molduras.
Filha da lendária Vovó Maria Joana e mãe de Deli Monteiro, atual matriarca do Jongo da Serrinha, Tia Eva Emely foi um pilar de afeto e resistência no Morro da Serrinha. Reconhecida por seu cuidado comunitário e por sua presença acolhedora nas rodas, no terreiro e no cotidiano da família, Tia Eva carregou consigo a sabedoria prática e espiritual que sustenta a tradição jongueira. 
Os itens aqui catalogados dialogam diretamente com os esforços contínuos de salvaguarda física do acervo, especialmente com a restauração do arquivo metálico e a organização do espaço conhecido como Quilombinho, que abriga parte da memória material do Jongo da Serrinha. Ao higienizar, acondicionar e digitalizar essas peças com rigor museológico, transformamos o combate à deterioração e ao esquecimento em um ato político de reparação. Através das Rodas de Identificação, a oralidade da comunidade preenche as lacunas dos registros. Esta coleção é, portanto, um testemunho de que a memória de Tia Eva Emely protege a própria história.

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