Oito pessoas, incluindo uma que segura um tambor, posam dentro de uma sala com paredes abertas. Todas as pessoas estão usando máscaras faciais.
O restauro do Terreiro Tia Eva Emely é um trabalho coletivo que honra o legado de quem fundou o Jongo da Serrinha — e reafirma que preservar memória é, antes de tudo, um ato comunitário.
"O terreiro da minha avó, lá em casa, e aqui, na casa da Dona Conceição, são lugares abençoados."
— trecho de Conversas de Quintal
Essa frase resume o significado do espaço que hoje abriga parte fundamental do nosso acervo. O Terreiro Tia Eva Emely — conhecido também como Quilombinho ou Memorial Tia Maria do Jongo — foi originalmente a casa de Dona Conceição, irmã de Tia Maria do Jongo. Em 2010, o local se transformou no Terreiro Eva Emely, passando a abrigar o acervo físico de Tia Maria. Mas foi em 2021, em plena pandemia de Covid-19, que a casa viveu seu momento mais decisivo: um trabalho de resgate e reforma garantiu que o imóvel não se perdesse e que as memórias de Tia Maria, de Vovó Maria Joanna e de toda a família tivessem um lugar seguro para permanecer.
Desde então, o Quilombinho é também espaço de atividades da Escola de Jongo da Serrinha e de preservação da memória dos mais velhos.

Tia Eva Emely Monteiro: "a cabeça de tudo"

Eva Emely Monteiro (1938–1994) fundou o Jongo da Serrinha junto com sua mãe, Vovó Maria Joanna, e seu irmão, Mestre Darcy do Jongo. Produtora cultural, cozinheira, compositora, sambista e gestora de conflitos, foi ela quem, com maestria e firmeza, sustentou o terreiro e a comunidade por décadas. Como resume sua filha, a atual matriarca Deli Monteiro: "Eva era a cabeça de tudo."
A Coleção Tia Eva Emely Monteiro reúne parte desse legado: fotografias, documentos, objetos e registros que atravessam gerações e que agora estão sendo organizados, catalogados e disponibilizados digitalmente.

Um restauro feito por muitas mãos

Preservar memória exige trabalho coletivo. O processo de reforma e organização do Quilombinho só foi possível graças a uma rede de mestres, griôs, jongueiros e parceiros que assumiram, cada um, uma parte dessa responsabilidade:
Obra estrutural: Mestre Anderson e seu filho Vinicius
Curadoria e seleção das fotografias de Tia Maria do Jongo: Lazir Sinval, Luana Ferreira e Mestre Ivo Mendes
Curadoria do acervo de Vovó Maria Joanna: Lazir Sinval, Deli Monteiro e Luana Ferreira
Recuperação e tratamento das molduras antigas: Lazir Sinval
Pintura interna e do chão do Quilombinho: Mestre Ivo, Valéria Marchon e Mestre Dilmar
Pintura das paredes: Lazir Sinval, Mestre Ivo, Luana Ferreira, Alexandra e Dilmar
Alimentação de toda a equipe: Damiana Alves
A elas e a eles, nosso reconhecimento: desempenharam papel fundamental para o fortalecimento das atividades do Jongo da Serrinha. No Quilombinho, até a panela no fogo faz parte do restauro — porque nenhuma obra comunitária se sustenta sem quem cuide de quem trabalha.

Cuidado técnico com as condições de guarda

Nesta reta final do projeto, o trabalho segue em ritmo constante. Com verba cedida pela UFF, o educador Rodney realizou o restauro dos armários-arquivo que acomodam os documentos e fotografias de Tia Maria do Jongo e de Vovó Maria Joanna. Os cuidados periódicos com esses equipamentos são fundamentais para a preservação do acervo e garantem melhores condições para as atividades de pesquisa, educação patrimonial e difusão cultural desenvolvidas pela instituição.

Um vídeo inédito: o resgate que continua

Em agosto deste ano, durante a Festa da Tia Eva, exibimos pela primeira vez um vídeo inédito com entrevista de Tia Eva Emely Monteiro — o único registro audiovisual dela encontrado até hoje. O arquivo foi localizado por Deli Monteiro e Luana Ferreira em uma ação de resgate de memória. A exibição foi seguida de roda de conversa com Deli e Luciana, do Quilombo Santa Rita do Bracuí, reunindo comunidades jongueiras, crianças e jovens da Escola de Jongo em um momento de integração e celebração, encerrado com uma grande roda e confraternização.

A metodologia que honra a ancestralidade

Todo esse processo segue a metodologia do Inventário Participativo, reconhecida pelo Ibram. A curadoria das fotografias não é feita por técnicos isolados, mas por quem viveu e vive essa história: mestres e griôs identificam rostos, contextualizam datas, atribuem significados afetivos e validam cada descrição antes que ela entre na plataforma Tainacan.
O acervo ganha acessibilidade digital desde o primeiro dia — texto alternativo (ALT TEXT) nas imagens, compatibilidade com leitores de tela, ajuste de contraste e tradução em Libras — porque memória viva só é viva quando é para todxs.

Explore a Coleção Tia Eva Emely Monteiro

🔗 Acesse a coleção completa: https://jongodaserrinha.org/colecao-tia-eva-emely/
Cada item catalogado no Quilombinho é um ato de reconhecimento: de que a cultura afro-brasileira é patrimônio do Brasil, de que a oralidade é saber legítimo e de que a Serrinha é, e sempre será, território de memória e resistência.
Este projeto foi possível graças ao apoio do @museusbr @minc.