Em foto desbotada, Tia Maria está em pé em uma varanda, à frente de uma porta marrom fechada. Ela é uma mulher negra e usa roupas brancas: vestido rendado com mangas curtas e lenço à cabeça, que cai acima de um ombro. Ela olha para frente e está com uma das mãos na cintura. Usa colar, pulseiras, relógio, anel, e sandálias com salto plataforma. A varanda tem azulejos à meia altura, brancos com estampas cinzas. Os patamares são brancos. Nela, há cadeiras com estofados brancos e vermelhos. No rodapé da foto, está escrito à caneta: 10-10-77.

Na reta final do projeto, celebramos a intuição visionária de uma mulher que transformou seu quintal em centro de memória viva e lançou as bases do Acervo Jongo da Serrinha.

Muito antes de falarmos em plataformas digitais, metadados ou políticas públicas de salvaguarda, Maria de Lourdes Mendes – a Tia Maria do Jongo (1920–2019) – já praticava a museologia social no quintal de sua casa, na Serrinha. Com caixas organizadas, cadernos repletos de anotações, fotografias datadas à mão, figurinos de carnaval, gravações e prêmios cuidadosamente guardados, ela construiu, de forma intuitiva e afetuosa, um verdadeiro centro de memória.

Apesar de se autointitular “analfabeta” por não ter concluído o ensino formal, Tia Maria revelou-se uma arquivista nata, compreendendo, muito antes de seu tempo, que guardar a própria história é um ato de resistência, afirmação identitária e luta democrática.

Foi esse legado material e simbólico que deu origem e impulso ao Acervo Jongo da Serrinha. Na reta final deste projeto estamos honrando a visão de uma mulher que fez do seu quintal um espaço de acolhimento, articulação política e transmissão intergeracional de saberes. Cada documento que manuseamos, cada imagem que escaneamos e cada narrativa que registramos dialoga diretamente com a prática dela: a memória como patrimônio vivo e como direito inalienável do povo negro.

Da Intuição à Metodologia Participativa

O trabalho que desenvolvemos segue a metodologia do Inventário Participativo, reconhecida pelo Ibram, que coloca a comunidade no centro do processo de preservação. Assim como Tia Maria validava cada registro com seu olhar crítico e afetivo, mestres, griôs, jongueiros e moradores da Serrinha são hoje os curadores da própria história. Eles identificam rostos, contextualizam datas, atribuem significados e garantem que a catalogação técnica nunca se sobreponha à voz de quem viveu a tradição. A tecnologia, aqui, não substitui a oralidade: ela a amplifica e a protege.

Memória Viva, Acesso para Todxs

Preservar não é abrir portas. Por isso, os itens que estão sendo digitalizados e organizados na plataforma Tainacan foram estruturados desde o início com diretrizes rigorosas de acessibilidade digital: texto alternativo (ALT TEXT) para todas as imagens, compatibilidade com leitores de tela, ajuste de contraste e tradução em Libras. Porque um acervo que não alcança todas as pessoas cumpre apenas metade de sua função social. Como nos ensinou Tia Maria: “Não somos donos de nada. Tudo que sabemos, devemos passar adiante.”

Reta Final, Mas Não é o Fim

Nesta fase de conclusão do projeto, o acervo físico segue sendo acondicionado, restaurado e catalogado no Quilombo Serrinha (antiga Ladeira da Balaiada), enquanto a versão digital ganha forma para alcançar escolas, pesquisadores, educadores, jongueiros e curiosos de todo o Brasil. Honrar Tia Maria é garantir que sua intuição se traduza em política cultural, que seu quintal continue sendo escola e que a história do jongo seja contada, sempre, por quem a viveu.

Convidamos você a acompanhar a construção da plataforma, visitar o Centro de Memória e se reconhecer nesta trama de afeto, resistência e ancestralidade. Porque memória viva só existe quando é compartilhada.

Este projeto foi possível graças ao apoio do @museusbr @minc

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