A memória se tece em encontros, em escutas ativas, em vozes que se encontram e se reconhecem. No último mês, o Acervo Jongo da Serrinha recebeu a liderança jongueira Luciana Adriano da Silva, do Quilombo Santa Rita do Bracuí, para uma roda de conversa que reforçou um dos pilares centrais do nosso trabalho: a construção coletiva e territorial da memória.
“Fui gerada no jongo, nasci jongueira e hoje sou liderança jongueira.” Com essas palavras, Luciana compartilhou sua trajetória marcada pela transmissão oral, pela formação de novas lideranças e pelo protagonismo negro que atravessa gerações. Filha do mestre jongueiro José Adriano da Silva e da liderança Clotildes da Silva Adriano (in memoriam), Luciana é a primeira pessoa de sua família a alcançar o ensino superior, graduada pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ao longo dos anos, formou jovens lideranças que hoje atuam em seus territórios, é filiada ao Movimento Negro Unificado (MNU) e ao Articula Preta de Paraty, e já ocupou a coordenação da ARQUISABRA (Associação de Remanescentes de Quilombolas de Santa Rita do Bracuí). Como ela mesma afirma: “Toda minha formação eu devo ao jongo e, pelos caminhos do jongo, vou seguindo onde o jongo me levar.”
Sua presença no espaço do acervo não foi apenas um encontro, mas um ato de reconhecimento mútuo entre territórios que carregam o jongo como linguagem de resistência, educação e afeto. No Acervo Jongo da Serrinha, acreditamos que a oralidade é uma forma legítima de documentação. Seguindo a metodologia de Inventário Participativo, reconhecida pelo Ibram, cada item catalogado passa antes pelo crivo da comunidade: mestres, griôs, jongueiros e parceiros validam datas, contextos e significados. A conversa com Luciana ilustra exatamente esse processo. Quando comunidades de diferentes territórios se encontram, o acervo deixa de ser um repositório estático e se transforma em rede viva. Trocas como essa alimentam a catalogação, ampliam os marcos referenciais e garantem que a história do jongo seja contada por quem a viveu e a vive.
Essa escuta se materializa nos 350 itens que estão sendo organizados e catalogados e, em breve, disponibilizados em nossa plataforma digital (Tainacan). Serão 100 documentos digitalizados com metadados descritivos, contextualização histórica e recursos de acessibilidade (texto alternativo, compatibilidade com leitores de tela e tradução em Libras). Porque memória é direito, não privilégio. E porque preservar o jongo é também garantir que pesquisadores, educadores, estudantes e novas gerações possam acessar, estudar e se reconhecer nessas trajetórias.
O encontro com Luciana reafirma que o Acervo Jongo da Serrinha não guarda apenas papéis e imagens: guarda encontros, afetos, saberes e lutas. Convidamos você a acompanhar o andamento do projeto, acessar o site em breve e, principalmente, a compartilhar conosco as histórias que constroem sua própria rede de memória.
Este projeto foi possível graças ao apoio do @museusbr @minc.